“Cordilheira” e a literatura nacional contemporânea

/ segunda-feira, fevereiro 18, 2019


Quando pensamos em literatura brasileira, logo lembramos de alguns nomes clássicos que nos foram apresentados na época do colégio: Machado de Assis, Augusto dos Anjos, José de Alencar. Aos 15 você muito provavelmente teve que ler Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis. Nossa, que livro complicado. Você muito provavelmente teve que ler Iracema de José de Alencar, também. Cheguei à um ponto que não aguentava mais saber da índia dos cabelos negros. E isso nos deixou marcados. Ficamos marcados contra a literatura nacional. Criamos preconceitos e olhamos de maneira torta para qualquer autor nacional que surja. Achamos que qualquer autor será tão denso quanto Machado e passamos uma vida de leitura olhando para as publicações de outros países, afinal ali eu encontro a literatura de entretenimento que procuro.

Quando terminei de ler Cordilheira, do autor nacional Daniel Galera, pensei em escrever como eu tinha criado uma enorme antipatia com a personagem principal. Acompanho o trabalho do autor por pelo menos quatro anos e nunca tinha topado com uma personagem como essa, que me fizesse pensar “ok, idiota, tá na hora de tomar um rumo na vida, né?”. E a experiência foi incrível pelo simples fato de ter que lidar com essa personagem tão diferente de mim. Uma personagem que buscou no seu refúgio para Buenos Aires uma tentativa de se encontrar e acabou rendendo mais que uma história de amadurecimento. Fui me vendo impressionada ao longo do livro e confirmando essa experiência fantástica, porém, mesmo sendo extremamente suspeita para falar do Galera (meu autor nacional favorito), resolvi levar essa discussão por outro caminho.

O Galera foi o primeiro autor nacional contemporâneo que tive contato e devo dizer que a leitura de Barba Ensopada de Sangue me fez abrir os olhos e expandir esse horizonte que me foi bloqueado lá nos anos de escola. Não é só de Machado que somos feitos. Ele é importante sim, mas não devemos nos apegar só ao seu legado para taxar toda uma diversidade literária nacional. Nesses últimos anos descobri autores nacionais aos quais me apaixonei. Não tive medo de me jogar em nomes desconhecidos. Arrisquei e encontrei histórias maravilhosas, simples e cheias de significados.

Entendo que atualmente o mercado editorial não dá muita visibilidade para esses autores. Mas fica aqui a dica: comecem pelos romances do Daniel Galera. Logo você estará adorando Edney Silvester, Alcione Araújo, Rubem Braga e muitos outros que virão logo depois desses. Aos poucos eu descobri que somos muito ricos na literatura e o somos nos dias de hoje. Percebi que eram essas mãos nacionais que escreviam histórias cotidianas com incrível complexidade. Percebi que posso continuar adorando Machado, mas que seus sucessores me fizeram tão feliz dentro das páginas de um livro quanto ele fez. 






Quando pensamos em literatura brasileira, logo lembramos de alguns nomes clássicos que nos foram apresentados na época do colégio: Machado de Assis, Augusto dos Anjos, José de Alencar. Aos 15 você muito provavelmente teve que ler Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis. Nossa, que livro complicado. Você muito provavelmente teve que ler Iracema de José de Alencar, também. Cheguei à um ponto que não aguentava mais saber da índia dos cabelos negros. E isso nos deixou marcados. Ficamos marcados contra a literatura nacional. Criamos preconceitos e olhamos de maneira torta para qualquer autor nacional que surja. Achamos que qualquer autor será tão denso quanto Machado e passamos uma vida de leitura olhando para as publicações de outros países, afinal ali eu encontro a literatura de entretenimento que procuro.

Quando terminei de ler Cordilheira, do autor nacional Daniel Galera, pensei em escrever como eu tinha criado uma enorme antipatia com a personagem principal. Acompanho o trabalho do autor por pelo menos quatro anos e nunca tinha topado com uma personagem como essa, que me fizesse pensar “ok, idiota, tá na hora de tomar um rumo na vida, né?”. E a experiência foi incrível pelo simples fato de ter que lidar com essa personagem tão diferente de mim. Uma personagem que buscou no seu refúgio para Buenos Aires uma tentativa de se encontrar e acabou rendendo mais que uma história de amadurecimento. Fui me vendo impressionada ao longo do livro e confirmando essa experiência fantástica, porém, mesmo sendo extremamente suspeita para falar do Galera (meu autor nacional favorito), resolvi levar essa discussão por outro caminho.

O Galera foi o primeiro autor nacional contemporâneo que tive contato e devo dizer que a leitura de Barba Ensopada de Sangue me fez abrir os olhos e expandir esse horizonte que me foi bloqueado lá nos anos de escola. Não é só de Machado que somos feitos. Ele é importante sim, mas não devemos nos apegar só ao seu legado para taxar toda uma diversidade literária nacional. Nesses últimos anos descobri autores nacionais aos quais me apaixonei. Não tive medo de me jogar em nomes desconhecidos. Arrisquei e encontrei histórias maravilhosas, simples e cheias de significados.

Entendo que atualmente o mercado editorial não dá muita visibilidade para esses autores. Mas fica aqui a dica: comecem pelos romances do Daniel Galera. Logo você estará adorando Edney Silvester, Alcione Araújo, Rubem Braga e muitos outros que virão logo depois desses. Aos poucos eu descobri que somos muito ricos na literatura e o somos nos dias de hoje. Percebi que eram essas mãos nacionais que escreviam histórias cotidianas com incrível complexidade. Percebi que posso continuar adorando Machado, mas que seus sucessores me fizeram tão feliz dentro das páginas de um livro quanto ele fez. 




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Conheci o autor Ian McEwan através de uma das indicações da TAG - Experiências Literárias. Naquele mês tinha recebido A balada de Adam Henry, um romance tocante que havia me lembrado um livro muito querido que li na adolescência. Encantei-me pela prosa de McEwan e pela delicadeza com que tratava assuntos pesados. Levada por essa boa experiência, em uma ida para a livraria me deparei com Enclausurado. A proposta de um feto narrador me pareceu peculiar e movida mais pela curiosidade do que por qualquer outra coisa comprei o livro.

Sempre fui fã do humor sarcástico tão típico de Douglas Adams, por exemplo, e foi esse humor que me atraiu em Enclausurado. Em um primeiro momento pode até parecer um tanto mórbido. Afinal, acompanhamos a vida de um feto que observa os planos e as movimentações de sua mãe e tio para matarem seu pai. Entretanto, esse feto sarcástico e cheio de opiniões muito bem formadas sobre tudo carrega um tom cômico que não via desde Memórias de um Sargento de Milícias de Manuel Antonio de Almeida.

Existe uma elegância na prosa do autor que me carregou do início ao fim da obra. Envolvi-me com o feto narrador, suas dúvidas, inquietações e traumas. Torci contra a mãe e o tio, fiquei triste e tive a clara visão de como seria aquela criança depois de crescida. Terminei o livro desejando que o autor continuasse me contando aquela história mesmo entendendo e achando incrível o seu desfecho.

Fiquei completamente envolvida com a narrativa de McEwan e encantada, mais uma vez com o seu talento para andar tanto pelo terreno da delicadeza dos sentimentos quanto pelo do sarcasmo cômico. Sinto que encontrei um grande autor contemporâneo que anda contra a maré do mercado editorial. Sinto que em cada livro de McEwan vou ter uma nova experiência e isso só me deixa mais ansiosa para os próximos lançamentos dele.






A noção de o que é bonito esteticamente sofreu alterações com o tempo junto com a concepção do que seria um corpo ideal. Falar sobre ser uma pessoa gorda hoje tem mais liberdades do que jamais tivemos. Sendo uma mulher gorda, percebi que no último ano as pessoas quebraram tabus e passaram a propagar as boas novas do amor próprio e da aceitação. Isso teve um reflexo imediato na televisão, cinema e mídia. Vimos Chrissy Metz em um papel de tirar o fôlego em This is Us, a Netiflix com Sierra Burges is a Loser e tantas outras aparições de corpos gordos em meios que antes pertenciam apenas aos corpos magros. 

Contudo, foi em Dunplim que percebi que o cinema deu mais um passo para junto do movimento Body Positive. O filme conta a história de Willowdean Dickson (Danielle Macdonald), filha de Rosie Dickson (Jeniffer Aniston) uma ex ganhadora de concursos de beleza. Como forma de protesto e em uma tentativa de se aproximar mais de sua falecida tia Lucy, Will se inscreve no concurso de beleza organizado pela mãe. Junto dela, mais meninas fora do padrão resolvem se inscrever para apoiar o protesto contra a extrema padronização dos corpos femininos.

A tia Lucy, uma mulher gorda que criou Will, é a figura da representatividade dentro da vida da menina. Cresceu vendo a confiança e o amor próprio em uma mulher completamente fora do padrão dos corpos femininos. Provavelmente essa imagem da tia foi o que levou Will a se entender como gorda e estar tranquila quanto a isso. Porém, essa é a grande questão que me pegou durante o filme.

Will se entende como uma garota gorda e aceita esse fato, mas ainda existe um grande caminho na vida dela para realmente amar e aceitar o corpo gordo. Isso fica bem claro durante sua relação com Bo (Luke Benward), o menino que gosta dela. Após fugir de um beijo entre os dois, Willowdean se tranca em seu quarto e encara sua imagem no espelho com um olhar de desespero. Ela julga ser impossível amar alguém como ela. 

Vemos uma dualidade dentro dessa personagem. Ao mesmo tempo em que entende que padrões são condenáveis ela não consegue se amar da forma que é. Deixando para mim bem claro a diferença com a personagem Millie Michalchuk (Maddie Baillio), uma outra garota gorda que realmente se entende, se aceita e se ama em seu corpo gordo. Isso fica explícito com a sua atitude de entrar no concurso apenas por sempre ter desejado aquilo. Para ela aquele não é um local em que não deveria estar, muito pelo contrário, ela se acha no direito de viver e pertencer a qualquer lugar social não importando o formato de seu corpo. 

Os figurinos das duas personagens também nos mostra as etapas diferentes que se encontram no processo de aceitação. Will está sempre de roupas com cores mais apagadas, camisetões e calça jeans largas. Millie usa saias, vestidos, alças e outras peças que seriam julgadas como não apropriadas para seu corpo. Apesar de podermos ter a interpretação de estilo de cada uma, sabemos que no cinema o figurino é uma peça fundamental para a significação dos personagens e é usada para passar uma mensagem sobre a personalidade dos mesmos.

No fim, Will precisa encontrar seu amor próprio e o faz com a ajuda de um grupo de Drag Queens. A cultura Drag é cheia de quebra de padrões sociais e estéticos e isso mostra para ela que para ser bonito não existe formato de corpo exigido. Lee "Rhea Ranged" Wayne (Harold Perrineau) é uma das drags que mostra para Will que antes de tudo precisamos nos achar bonitas e nos amar. O processo precisa vir de dentro e só assim conseguiremos ocupar os espaços que desejamos e aceitar o amor que nos é oferecido.

Will representa muitas mulheres que ainda não aceitaram seus corpos e por isso não se acham dignas de nada. O processo de aceitação é longo, doloroso, irregular e diário. Costumo dizer que ele se dá todo dia quando a porta do elevador se abre e encaro minha imagem naquele espelho de corpo inteiro. Sofremos tanta gordofobia ao longo dos anos, tanto de pessoas que nos amam disfarçando o preconceito com preocupação com a saúde, quanto da própria sociedade que não é feita para o corpo gordo. Meu trabalho aqui e de tantas outras pessoas que militam no Body Positive e fazer com que os outros entendam que o problema não está no corpo gordo.

Apesar da boa mensagem que o filme passa, acho que ainda não chegamos em um ponto do cinema em que eu me sinta completamente representada. Ainda estou esperando uma gorda em um papel que não seja de luta e aceitação. Por qual motivo ela não pode ocupar o papel de uma mulher como qualquer outra? Ainda espero pelo dia em que o ápice da superação não seja conseguir namorar o garoto galã como se isso fosse a maior quebra de padrões possível. Também espero pelo dia em que o homem gordo não seja o palhaço ou o zoado. Quero homens e mulheres gordas em posições de poder, sem terem sua auto-estima e imagem questionadas. Acho que é a nossa luta que está impulsionando essas mudanças e que no fim chegaremos em um momento onde o corpo gordo será tão natural quanto o corpo magro.



"Dumplin' " e a gordofobia

por em domingo, fevereiro 10, 2019
A noção de o que é bonito esteticamente sofreu alterações com o tempo junto com a concepção do que seria um corpo ideal. Falar sobre se...