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Pela primeira vez, em vinte e cinco anos de vida, eu tinha comprado uma saia. Senti-me tão ousada na hora da compra que fui logo comprando uma midi, daquelas que chegam até o meio da canela. Minha nossa, pensei, era agora ou nunca. Ou eu ficava linda dentro daquela saia ou eu acabava de vez com meus sonhos de moda. Pode parecer estranho falar sobre a ousadia da compra de uma peça de roupa tão comum, mas esse tópico é muito presente na minha vida, na vida de uma mulher gorda e para contar minha experiência com a leitura do livro A Gorda de Isabela Figueiredo eu achei que era necessário contar também a minha história. Não entenda como pretensiosismo. Tente entender como uma forma de dizer que aquele livro não foi só ficção para mim. Ele foi tão real que às vezes parecia que nossas histórias se confundiam. Mas vamos começar do começo.

Assim como Maria Luísa, personagem de A Gorda, eu sempre fui gorda. Desde criança, adolescência e até hoje, na vida adulta. Vou confessar que quando menina nunca senti a gordofobia me atingir muito forte, achava apenas que as meninas não gostavam tanto assim de mim e por isso não eram tanto minhas amigas. Era difícil ser a garota nova em uma escola em que todos tinham estudado juntos desde a pré-escola. 

Aos oito anos eu escutei que eu era mais gorda do que minha pasta. A bendita pasta de guardar trabalhos que eu pedia que minha mãe comprasse da fininha que insistia em comprar da mais grossa, segundo ela ia caber mais coisas ali. Eu lembro com perfeição do momento, do local, das crianças e daquela menina alta vindo lá do fim da fila me chamar de gorda. Lembro também que na hora não dei atenção, não sei se todos que estavam em volta riram ou se nem perceberam, mas sei que no dia seguinte não queria ir pra escola. Chegaram a me perguntar o motivo de não querer ir, só que preferi não contar e agir como se nada daquilo tivesse acontecido. 

Maria Luísa foi extremamente ridicularizada durante seu período escolar e mesmo sua amizade com Tony era abusiva em uma tentativa que Maria tinha de ser aceita e amada. Acho que percebendo que meu corpo era alvo de piada eu comecei a tomar algumas atitudes durante a escola que me garantiram mais tranquilidade e a possibilidade de ser aceita no grupo. Como a personagem de A Gorda eu me submeti à figura da gorda engraçada, da gorda mãezona e da gorda conselheira em uma tentativa de me fazer útil dentro daquelas amizades. Por ser gorda entendi que tinha que ser a mais inteligente, afinal ser burra além de gorda estava completamente fora de possibilidade para mim. Para me ver livre das chacotas, fiz amizade com o a turma do fundão e deixava com que copiassem todas as minhas tarefas e até cheguei a passar algumas colas nas provas. 

Durante a adolescência eu tentei descobrir quem eu era, do que eu gostava, quais eram as roupas que eu queria usar. Veja, se você perguntar para quem tem a minha idade a maioria vai assumir que foi Emo durante a adolescência. Lembra deles? Me apaixonei perdidamente pelo estilo e tinha decidido que era daquela forma que queria me vestir. Porém, faço aqui um questionamento, alguma vez você já viu um Emo gordo? Não estou falando daquelas imagens de zoeira, estou falando daqueles modelos que todos os adolescentes da época queriam seguir. Não existiam Emos gordos e por isso decidi que era hora de emagrecer. 

Peguei a foto do guitarrista e do vocalista da minha banda preferida e colei na parede do quarto e no espelho. Eles eram lindos e magros e decidi que iria ficar magra como as garotas que eles pensariam em namorar. Tentei primeiro ficar sem comer, como ficava sozinha em casa era fácil enganar meus pais, mas eu amava tanto a comida deles que era meio impossível. Tentei mastigar e cuspir fora, o que foi mais fácil, mas a reação natural do meu corpo era engolir então acabou que não deu muito certo. Fui aos poucos desistindo da ideia de emagrecer e tentei encontrar meu estilo nas roupas que cabiam em mim.

Como Maria Luísa e, apesar de não parecer pelo meu relato, minha vida nunca girou em torno do meu corpo ou do fato de precisar emagrecer. Apesar de esse ser um fato constante na minha vida, eu conseguia levá-la de forma leve e tranquila. Por isso gostei tanto da forma como Isabela descreveu a vida de sua personagem. Ela não era uma gorda caricata como vimos nos filmes ou em milhares de livros onde tudo se resume ao seu corpo. Maria viveu sua vida além de seu corpo e eu tentei ao máximo fazer isso. Contudo, enquanto eu não conseguisse me olhar no espelho e amar aquela imagem, eu não conseguiria continuar vivendo além.

No alto da minha adolescência eu tinha uma amiga gorda que era muito, mas muito encanada com o próprio corpo. Durante nossa amizade lembro de ver ela fazendo milhões de dietas loucas e perigosas. A mãe dela era a principal incentivadora de tudo aquilo, mas foi só mais pra frente que vi o quão tóxica era aquela amizade. Um dia, talvez numa tentativa de me sentir tão mal com minha imagem como ela se sentia com a sua própria, ela me disse que seus amigos não entendiam como poderia ser amiga de alguém tão gorda quanto eu. Eu fiquei em choque no momento. Como alguém teria a coragem de dizer aquilo para outra pessoa? Lembro de voltar pra casa, tirar as fotos do guitarrista e do vocalista de minha parede e decidir que aquele era o fim daquela amizade. Talvez nessa hora eu também tivesse decidido que era o fim do problema com o meu corpo, mas como ainda não entendia o quanto precisava me amar direito, ainda continuei sendo perseguida.

A falta de amor próprio não dói de uma vez. Ela dói em parcelas, tipo prestações das Casas Bahia. Um pouquinho toda vez que você se olha no espelho. Eu vi essa dor muito clara na história de Maria Luísa e chorei junto com ela como agora choro relembrando essas histórias. Antes de entender o que eu precisava fazer por mim mesma eu passei o fim da adolescência pesquisando sobre bulimia e anorexia e como elas poderiam me ajudar a amar o meu corpo. Tentei vomitar, mas tinha medo que descobrissem. Tentei tomar laxante, mas minha mãe sempre foi muito observadora e tinha certeza que ela iria desconfiar. Tentei fazer exercícios exagerados, mas depois de uma hora de aula de BodyCombat que havia encontrado na internet eu tinha cada músculo do meu corpo gritando de dor. Até que no início da minha vida adulta eu descobri que sofria de Hipotireoidismo e uma luz tinha se acendido. O remédio para a Hipo era o mesmo que algumas meninas tomavam para acelerar o metabolismo do corpo e emagrecer, por isso por um bom tempo tomei doses triplicadas do meu remédio em uma esperança de ver essas questões resolvidas. Foi logo depois que entendi que não havia dieta e não havia remédio que ia resolver um problema que estava só e apenas na minha cabeça.

Eu sinto por Maria Luísa, pois sei que ela nunca encontrou as respostas que eu encontrei. Ela ficou presa nos rótulos gordofóbicos que eu tinha ficado presa por muito tempo. Sabe, é muito difícil desfazer esses conceitos, principalmente quando você cresce ouvindo todos eles como a maior verdade. Depois de encontrar o feminismo eu pude entender que todas aquelas verdades eram mentiras, mas mesmo sabendo disso ainda é complicado virar a chave na minha cabeça e passar a olhar meu corpo gordo com amor e carinho. A auto-aceitação não é um processo linear e contínuo. É um caminho tortuoso e cheio de obstáculos que você vence toda vez que se olha no espelho e vê beleza. 

Quando eu comprei minha saia eu morri de medo de sair de casa com ela, mas acho que fiz a decisão certa em ir para a discussão de A Gorda no Leia Mulheres de Campinas. Ao final, uma das participantes me parou e disse como eu estava linda naquela saia. Dei um abraço forte nela e agradeci pelas suas palavras. Ao entrar no carro para voltar para casa eu chorei. Chorei tanto que meu namorado se desesperou sem saber o que fazer. Era como um choro de alívio e alegria. Aquele dia eu construí mais um tijolo na minha parede do amor-próprio e desde então eu coloco a minha saia e me sinto linda. Me sinto eu mesma da melhor maneira possível.





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A noção de o que é bonito esteticamente sofreu alterações com o tempo junto com a concepção do que seria um corpo ideal. Falar sobre ser uma pessoa gorda hoje tem mais liberdades do que jamais tivemos. Sendo uma mulher gorda, percebi que no último ano as pessoas quebraram tabus e passaram a propagar as boas novas do amor próprio e da aceitação. Isso teve um reflexo imediato na televisão, cinema e mídia. Vimos Chrissy Metz em um papel de tirar o fôlego em This is Us, a Netiflix com Sierra Burges is a Loser e tantas outras aparições de corpos gordos em meios que antes pertenciam apenas aos corpos magros. 

Contudo, foi em Dunplim que percebi que o cinema deu mais um passo para junto do movimento Body Positive. O filme conta a história de Willowdean Dickson (Danielle Macdonald), filha de Rosie Dickson (Jeniffer Aniston) uma ex ganhadora de concursos de beleza. Como forma de protesto e em uma tentativa de se aproximar mais de sua falecida tia Lucy, Will se inscreve no concurso de beleza organizado pela mãe. Junto dela, mais meninas fora do padrão resolvem se inscrever para apoiar o protesto contra a extrema padronização dos corpos femininos.

A tia Lucy, uma mulher gorda que criou Will, é a figura da representatividade dentro da vida da menina. Cresceu vendo a confiança e o amor próprio em uma mulher completamente fora do padrão dos corpos femininos. Provavelmente essa imagem da tia foi o que levou Will a se entender como gorda e estar tranquila quanto a isso. Porém, essa é a grande questão que me pegou durante o filme.

Will se entende como uma garota gorda e aceita esse fato, mas ainda existe um grande caminho na vida dela para realmente amar e aceitar o corpo gordo. Isso fica bem claro durante sua relação com Bo (Luke Benward), o menino que gosta dela. Após fugir de um beijo entre os dois, Willowdean se tranca em seu quarto e encara sua imagem no espelho com um olhar de desespero. Ela julga ser impossível amar alguém como ela. 

Vemos uma dualidade dentro dessa personagem. Ao mesmo tempo em que entende que padrões são condenáveis ela não consegue se amar da forma que é. Deixando para mim bem claro a diferença com a personagem Millie Michalchuk (Maddie Baillio), uma outra garota gorda que realmente se entende, se aceita e se ama em seu corpo gordo. Isso fica explícito com a sua atitude de entrar no concurso apenas por sempre ter desejado aquilo. Para ela aquele não é um local em que não deveria estar, muito pelo contrário, ela se acha no direito de viver e pertencer a qualquer lugar social não importando o formato de seu corpo. 

Os figurinos das duas personagens também nos mostra as etapas diferentes que se encontram no processo de aceitação. Will está sempre de roupas com cores mais apagadas, camisetões e calça jeans largas. Millie usa saias, vestidos, alças e outras peças que seriam julgadas como não apropriadas para seu corpo. Apesar de podermos ter a interpretação de estilo de cada uma, sabemos que no cinema o figurino é uma peça fundamental para a significação dos personagens e é usada para passar uma mensagem sobre a personalidade dos mesmos.

No fim, Will precisa encontrar seu amor próprio e o faz com a ajuda de um grupo de Drag Queens. A cultura Drag é cheia de quebra de padrões sociais e estéticos e isso mostra para ela que para ser bonito não existe formato de corpo exigido. Lee "Rhea Ranged" Wayne (Harold Perrineau) é uma das drags que mostra para Will que antes de tudo precisamos nos achar bonitas e nos amar. O processo precisa vir de dentro e só assim conseguiremos ocupar os espaços que desejamos e aceitar o amor que nos é oferecido.

Will representa muitas mulheres que ainda não aceitaram seus corpos e por isso não se acham dignas de nada. O processo de aceitação é longo, doloroso, irregular e diário. Costumo dizer que ele se dá todo dia quando a porta do elevador se abre e encaro minha imagem naquele espelho de corpo inteiro. Sofremos tanta gordofobia ao longo dos anos, tanto de pessoas que nos amam disfarçando o preconceito com preocupação com a saúde, quanto da própria sociedade que não é feita para o corpo gordo. Meu trabalho aqui e de tantas outras pessoas que militam no Body Positive e fazer com que os outros entendam que o problema não está no corpo gordo.

Apesar da boa mensagem que o filme passa, acho que ainda não chegamos em um ponto do cinema em que eu me sinta completamente representada. Ainda estou esperando uma gorda em um papel que não seja de luta e aceitação. Por qual motivo ela não pode ocupar o papel de uma mulher como qualquer outra? Ainda espero pelo dia em que o ápice da superação não seja conseguir namorar o garoto galã como se isso fosse a maior quebra de padrões possível. Também espero pelo dia em que o homem gordo não seja o palhaço ou o zoado. Quero homens e mulheres gordas em posições de poder, sem terem sua auto-estima e imagem questionadas. Acho que é a nossa luta que está impulsionando essas mudanças e que no fim chegaremos em um momento onde o corpo gordo será tão natural quanto o corpo magro.


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"Dumplin' " e a gordofobia

por em domingo, fevereiro 10, 2019
A noção de o que é bonito esteticamente sofreu alterações com o tempo junto com a concepção do que seria um corpo ideal. Falar sobre...