terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Resenha: "Barba Ensopada de Sangue"



Daniel Galera é um escritor nacional contemporâneo, nasceu em São Paulo, mas viveu grande parte de sua vida em Porto Alegre, onde reside atualmente, e em Garopaba, Santa Catarina. Formou-se em publicidade na UFRGS, fundou a editora Livros do Mal voltada para a nova literatura e conquistou o cargo de coordenador do Livro e da Literatura na Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de Porto Alegre.

Além de escritor, é tradutor literário e também um dos precursores do uso da internet para a literatura, com edições e publicações de textos para sites. Ganhou o Prêmio Machado de Assis de Romance por Cordilheira e o terceiro lugar do Prêmio Jabuti. Já escreveu quatro livros e teve algumas participações em antologias de contos. Barba Ensopada de Sangue é seu último livro lançado.

Nesse romance, somos apresentados a um professor de educação física (cujo nome não sabemos) que buscou refúgio em Garopaba, Santa Catarina, depois da morte conturbada de seu pai. O personagem, além de portador de uma doença rara que faz com que se esqueça do rosto das pessoas, é inserido no mistério que circula a morte de seu avô, Galdério, nessa mesma cidadezinha litorânea que escolheu para alguns dias de paz.

Curioso acima de tudo, sempre que tem oportunidade pergunta para os moradores mais antigos sobre o velho Galdério, porém só recebe em troca olhares desconfiados e o silêncio de todos os moradores. Como se só este mistério não bastasse, sua doença faz com que se relacione de uma forma diferente com as pessoas e seu passado, ainda como uma ferida aberta, ainda a latejar de dor.

Daniel Galera tem uma forma de escrita que nunca tinha presenciado. É forte, dinâmico e até perturbador. As falas são colocadas como se fossem um elemento surpresa, como se Galera quisesse nos surpreender na leitura como nos surpreendemos no dia-a-dia com as falas das pessoas. Em um primeiro momento me senti incomodada com a linguagem com que escreve os diálogos, completamente informal. É como se estivéssemos realmente conversando com alguém de Garopaba, com todos os seus vícios de linguagem e expressões diferentes.

O romance tem uma peculiaridade que foi o que me deixou mais apaixonada por ele. A história é contada em primeira pessoas, logo, inconscientemente, já imaginamos que "entraremos" na cabeça do personagem e saberemos de tudo o que se passa com ele. Porém, Daniel nos impressiona mais uma vez, com uma narrativa em primeira pessoa e impessoal. Controverso, lemos as ações do personagem e criamos uma ânsia louca para saber o motivo de suas atitudes. Esperamos explicações que não vêm e somos obrigados a analisar como um elemento de fora que fomos obrigados a ser. Os sentimentos nunca são explícitos, os motivos, o passado, tudo se torna tão misterioso quanto o próprio Galdério. 

Daniel Galera não foi menos do que genial ao escrever esse livro. É o tipo de literatura que, não só entretêm,     como também obriga o leitor a fazer um bico como psicólogo. A literatura nacional deve se sentir privilegiada por ter em seu acervo uma riqueza como Barbar Ensopada de Sangue e Galera provou, mais uma vez, que o Brasil tem sim escritores maravilhosos que só esperam pelo devido reconhecimento.

- Camila Fencz

Um comentário:

  1. Eu estou começando a me interessar por escritores brasileiros ... e cada vez me surpreendo com resenhas de livros maravilhosos ...
    ;*


    www.moniitorando.blogspot.com

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