quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Resenha: "Quincas Borba"





Machado de Assis publicou em todos os gêneros literários mesmo sem ter frequentado a escola da maneira correta. Contudo, com a grande ânsia de ascender socialmente foi em busca do conhecimento, fazendo com que ocupasse vários cargos públicos. Pouco tempo depois, reunindo colegas próximos, fundou a Academia Brasileira de Letras, da qual foi o primeiro presidente unânime.

Machado participou de duas correntes literárias. Primeiramente escreveu sob influencias do Romantismo, escola literária que estava em vigor na época. Depois, com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, introduziu o Realismo no país com influências de Victor Hugo, Gustave Flaubert e, principalmente, inspirando-se em Schopenhauer.

Quincas Borba foi sua segunda obra Realista e, tendo em vista esse estilo literário, o livro trás uma análise profunda da sociedade da época. Após a morte de seu amigo e mestre Quincas Borba, Rubião se vê herdeiro de toda fortuna do mesmo e, como a maioria dos "novos ricos", fica encantado com tanta riqueza  e decide ajudar o recém amigo Cristiano e sua bela esposa Sofia. Porém Rubião se apaixona pela esposa do amigo e remói esse amor por conta da intensa amizade que mantém com o casal, fazendo com que seus sentimentos borbulhem dentro de si e muitas vezes agindo de maneira não muito convicta.

Abalado por todas essas sensação, Rubião investe cada vez mais dinheiro em um certo negócio que é sócio com Cristiano. Cego de amores e, muitas vezes de ciúmes, o protagonista não vê que seus "grandes amigos" estão tirando vantagens de toda sua herança e ingenuidade de novo rico. Aproveitando de seu amor por Sofia e seu carinho para com Cristiano, o casal vai cada vez mais minando todas as riquezas sem remorso algum.

Machado trouxe para a literatura brasileira um nova forma de escrever. Usando correntes filosóficas como o Determinismo e o Positivismo o escritor trabalha com o lado mais cruel do ser humano. Ouvi-se falar de "visão machadista" que não seria nada mais do que acreditar que o homem é ruim e egoísta em sua natureza, características marcantes em suas obras realistas que exploram os sentimentos mais primitivos de nós.

Sua escrita é irônica e cruel, não perdendo a chance de criticar ideias da época como quem cutuca onça com vara curta. O tom ácido dá à obra um aspecto crítico e, muitas vezes, divertido na sua literatura. O fato de manter um diálogo com o leitor ao decorrer da obra dá um toque de informalidade muito sutil, logo quebrado pelas ideias complexas e análises do mundo.

Machado tem uma maneira inusitada de descrever seus personagens. Nunca em uma obra sua dará para aos leitores características prontas de seus personagens. O autor coloca situações e diálogos no decorrer do enredo que fazem com que o leitor tire suas próprias conclusões sobre o personagem em questão, fazendo com que trabalhemos nosso senso crítico e visão de mundo.

O escritor pontua neste livro a ganância e explora a loucura como causa de morte. Mostra que amizades, muitas vezes, têm um fundo de interesse profundo e financeiro praticado por pessoas inescrupulosas de uma sociedade individualista. O uso de um sentimento para a completa manipulação do outro tem uma presença forte e constante no livro, muitas vezes assustadora pela extensão em que isto é levado.

Esse grande escritor brasileiro trouxe para nossa literatura uma nova forma de ler um livro. Não podemos esperar dele uma história bonita e emocionante, mas sim análises de caráter e reflexões do sentido de tudo no mundo. Talvez essa maneira inusitada herdada de tantos outros escritores estrangeiros, seja a grande barreira que separa leitores em potencial de Machado de Assis. Suas obras são completas e complexas, exigindo atenção e conhecimento de mundo para boa interpretação. É isso que faz com que seus livros sejam tão discutidos até mesmo na atualidade e, muitas vezes, adorados por tantas pessoas que falam com boca cheia que Machado de Assis foi, é e sempre será o maior escritor brasileiro.

- Camila Fencz

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